Alimentação
Alimentação
Ambientalismo
Ambientalismo
Corrida de Aventura
Corrida de
Aventura
Esclada
Escalada
em rocha
Escalada em gelo
Escalada
em gelo
Light & Fast
Light & Fast
Mountain bike
Mountain Bike
Montanhismo
Montanhísmo
Saúde e cuidados médicos
Saúde e
Cuidados
Médicos
Tecnologia dos Tecidos
Tecnologia
dos Tecidos
e Vestimentas
Assunto: Ambientalismo
Título: Área de proteção ambiental: problemas práticos de manejo
Autor: Luiz Makoto Ishibe

Praticar atividades ligadas ao montanhismo é um excelente modo de viajar e tomar contato com pessoas, culturas, e locais diferentes.

Estive viajando na região da Serra da Canastra, no município de Delfinópolis em Minas Gerais. O entorno do Parque Nacional consiste de vales delimitados pelos paredões de arenito compacto, o que resulta em paisagens de rara beleza que mereciam ser incluídas na área do parque.

Lá conheci o Seu Antônio, um fazendeiro simples, boa gente, contador de história de fala mansa. Ele me contou um pouco da sua história. Falou-me sobre as onças e os lobos guarás. Também me disse que está no segundo casamento e com isso, no processo de desquite, a sua ex-esposa ficou com 100 alqueires da sua terra restando para ele a outra metade.

A sua propriedade minguou ainda mais depois de perder mais uma porção de terra como pagamento de dívida. Como desgraça pouca é bobagem, numa batida dos fiscais da polícia florestal, foi flagrado com uma velha garrucha que pertenceu ao seu pai e a arma foi apreendida.

Por ser a região um reduto eleitoral de Aécio Neves, num dos comícios na cidade teve a oportunidade de fazer contato com alguns políticos e conseguiu integrar um grupo de representantes local para ter uma audiência com Newton Cardoso, então Governador do Estado. Era tudo que ele precisava. Iria poder explicar o valor sentimental da arma e tê-la de volta, assim como pleitear o desmatamento de 20 alqueires de terra que ele precisava para ampliar o seu campo de pastoreio do gado. Afinal, a parte boa do pasto ele já havia perdido nos acontecimentos anteriores e a vida estava difícil.

Mas a resposta que ele recebeu foi a dupla negativa. No fim da nossa conversa ele me falou com olhos tristes, sem maldade, que ele odeia esse tal de IBAMA e (Polícia) Florestal que ele julga serem os responsáveis pela situação em que se encontra hoje.

Da mesma forma, na região de Brasópolis conheci dois irmãos que faziam a ronda de vigilância do gado numa fria noite de inverno. Eles me contaram que o sacrifício era necessário pois se não as onças apareciam atraídas pela presa fácil. Quando falei que o animal era protegido pela lei, eles me falaram: se o governo me indenizar pelo gado morto, eu deixo as onças em paz.

Essas histórias mostram que criar legislação e áreas de proteção ambiental por si só não basta, mas pode até acabar gerando situações em que os proprietários da terra local acabem se revoltando contra estas ações que a princípio deveriam visar o bem comum.

Mesmo nos locais próximos de centros urbanos como o município de Jundiaí (distante a cerca de 40km da cidade de São Paulo), houve relato de 11 incêndios num período de apenas 4 anos na Fazenda Japi (isso sem falar na Fazenda Bonifácio, Recreio, Conde e Sítio Piracatu). Uma estatística que indica essa ordem de valor mostra claramente que as ocorrências estão além de incidências acidentais e reforça a insatisfação de pelo menos alguns dos proprietários da região com a situação.

Assim sendo, a criação de área de tombamento ou de proteção ambiental somente dá resultado em dois casos: com a desapropriação e implementação de um plano de manejo adequado ou, no caso da impossibilidade disso, com uma ação sócio econômico integrado de forma a trazer compensações para os proprietários da terra local.

Não tem sentido criar leis e regulamentações que torne uma parcela da população contra os princípios ambientais, mesmo por que eles não são contra o princípio em si. Eles são contra, e com razão, da forma que as normas são impostas sem a menor preocupação com as conseqüências dessas medidas nas vidas deles.

Isso mostra uma vez mais a importância do plano de manejo. O governo ou os órgãos competentes têm não só obrigação de levantar as formas alternativas para tornar a vida dessas pessoas melhores mas também de criar uma estrutura de divulgação e educação para eles, capacitando-os para poder colher os benefícios da medida e ao mesmo tempo alinhar nos procedimentos do plano de manejo. Se isso ocorrer essas pessoas vão naturalmente se tornar os defensores da causa, além de abrir outras possibilidades de ações que tragam mais benefícios para o bem comum. Sem medidas de responsabilidade social e educação o conservacionismo ambiental perde o alicerce de sustentação.

Al. dos Nhambiquaras, 946 - Moema - São Paulo - Tel.: (11) 5052-8082