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A navegação cartográfica é a habilidade com a qual você se desloca de um lugar a outro (normalmente separados por uma distância considerável) utilizando informações contidas numa carta topográfica e planilha de informações em conjunto com outros instrumentos como bússolas e altímetro (eventualmente até GPS). É importante que se saiba que as técnicas envolvidas nessa atividade são muito diferentes das utilizadas em corridas de orientação do tipo caça ao tesouro.
A navegação cartográfica e a estratégia de prova são, em conjunto, a alma da corrida de aventura. Se uma equipe tiver como integrantes um bom estrategista e um bom navegador (que são adjetivos que podem até estar concentrados numa só pessoa) ela minimiza a chance de cometer erros e com isso consegue otimizar os esforços. Não é raro vermos equipes percorrendo distâncias muito superiores àquela estipulada pela organização devido aos erros.
As habilidades de navegador e estrategista têm se mostrado consideravelmente importantes neste tipo de atividade.
Participei de algumas provas de aventura por aí e vi muita gente reclamando da má qualidade dos mapas do IBGE por serem antigos e desatualizados. O Eco-Challenge-99 utilizou mapas 1:100.000 e 1:50.000 da década de 30 sem atualizações. Mesmo assim as equipes de ponta pulverizaram a estimativa oficial e finalizaram a prova no sexto dia. É importante que considerem a carta topográfica como um instrumento, uma fonte de informação. Não tentem navegar sobre o mapa.
Foto: Alice Shintani
A navegação cartográfica é uma atividade que se executa sobre o terreno (ou relevo, se preferir) e não sobre uma folha de papel. Também tenho visto pessoas utilizando bússolas com agulhas compensadas para serem usadas no Hemisfério Norte e acredito que alguns não levam o altímetro muito a sério como instrumento de navegação.
A habilidade de navegação cartográfica é o resultado de interação de conhecimentos em diferentes disciplinas com uma dose considerável de intuição. Os instrumentos, incluindo mapa, para nada servirão se você não tiver as habilidades treinadas para poder extrair as informações relevantes. Assim, os mais aptos a conseguir navegar são aqueles que possuem capacitação para extrair as informações do mapa, da planilha e dos instrumentos e, processando-as com experiência e intuição, conseguem conectar pontos distintos com eficiência. Deve-se ter em mente que a maioria dos locais onde acontecem as corridas de aventura (salvo exceções, como Nova Zelândia) são tecnologicamente isolados e as cartas topográficas disponíveis são imprecisas e desatualizadas. Desse modo, reconhecer as limitações do mapa também faz parte da habilidade necessária. Pessoalmente, achei os mapas da E.M.A.-99 muito bons, inclusive com correções (ou atualizações) em pontos relevantes.
Um ponto super importante: A navegação cartográfica como atividade deve ser feita sobre a topografia, ou seja, o relevo. O mapa é apenas uma referência (ou instrumento, se preferir) e, na minha opinião, é completamente errado querer navegar sobre uma folha de papel, que é o mapa. A seguir, listarei algumas das habilidades que julgo serem fundamentais para a navegação cartográfica em provas de corrida de aventura:
A- Leitura de Mapa: É a disciplina básica da navegação. Pegar um mapa e saber interpretar as curvas de nível, identificar as feições topográficas e outras informações contidas é o primeiro passo. O segundo passo é a capacitação para, estando em campo, conseguir identificar as feições reais que você está vendo na superfície bidimensional da sua carta. Aqui deve-se tomar muito cuidado, pois uma topografia definida não significa necessariamente curvas de nível. Isso ficou evidente no PETAR. Em terreno calcário é comum ocorrer formações topográficas super bem definidas, mas um morro de 60 metros de altura, por mais definido que seja, pode ser apenas duas curvas de nível (até 20m abaixo da primeira, uma curva, mais 20m, outra curva e até 20m acima dela). Monitorar a altimetria é fundamental, assim como planilhar as distâncias parciais entre pontos marcantes.
B- Visualização Espacial: Uma vez que você consiga fazer uma boa leitura da carta, é importante estar capacitado para localizar a sua posição e criar uma visão espacial do conjunto de relevo em que você está inserido. Por exemplo, se você estiver em uma cidade como São Paulo existem algumas feições de grande porte, como avenidas e parques, e outras menores, como ruas, ruelas e edificações. Caso você esteja confinado entre duas grandes avenidas você sabe que pode se mover livremente na direção paralela a estas feições e, com uma certa restrição, transversalmente a elas, sem sair da área por elas delimitada.
De forma análoga, nas áreas abertas existem feições de grande porte como vales, cristas marcantes, rios, estradas e quebras de relevo topográfico entre outras. E feições secundárias como riachos, drenagens, ravinas, morros, esporões e outros. Assim, se você estiver avançando para, digamos, sul, confinado entre um rio e uma crista com desenvolvimento no sentido N-S, você possui uma liberdade relativa para deslocar no sentido L-O, desde que mantenha a predominância sul e não cruze o rio e nem a crista em questão. E, de quebra, você pode ter uma idéia do seu avanço, monitorando as feições secundárias.
Vi muita gente monitorando o sentido das trilhas e preocupados porque hora desviou para lá ou para cá. Tenham em mente que desvios pequenos não podem ser plotados no mapa (na escala 1:50000, 1mm = 50m) e que o importante é a tendência geral. A visão espacial é muito importante durante navegação em alça para que você saiba quando deve manter a sua posição em relação a um elemento topográfico (vale, encosta, crista, etc.) e quando deve cruzá-lo.
C- Interpretação subjetiva: Nas provas de corrida de aventura, nem sempre existem vias ou trilhas plotadas entre os PCs. Mas mesmo assim a organização dá algumas dicas de como efetuar a conexão, como distância estimada do percurso e/ou rumo predominante. Sair conectando esses pontos sem vias de ligação é conhecido como navegação em alça, e parece-me que muita gente tem dificuldade em executá-la.
Foto: Alice Shintani A interpretação subjetiva em navegação em alça entra na forma de bom senso. Antes de mais nada, para que aquele percurso exista foi necessário realizar o reconhecimento. Assim sendo, a passagem é possível e, não apenas isso, também viável. Entenda-se por viável algo que seja natural, ou seja, ninguém sairia rasgando a mata no peito, cruzando vales e cristas em linha reta.
Aliás, quando se trata das trilhas, o melhor caminho entre dois pontos (quase) nunca é uma reta. Então procure imaginar uma rota natural. Procure visualizar descidas e subidas cruzando as curvas de nível em diagonal ou zigue-zague. Busque vales de baixa declividade.
Não é comum (apesar de não ser impossível) trilhas não turísticas que sigam uma crista longa (os mateiros locais preferirão vales ou encostas onde tenham possibilidade de coletar água).
Também imagine que as trilhas tendem a rumar para locais habitados (bairros ou vilarejos) ou para vias de acesso (estradas). O homem é um bicho social e, por assim ser, tende a criar vias de acesso para poder encontrar os semelhantes.
D- Rastreamento: a habilidade de rastrear sinais é um fator quase determinante em navegação em alça (ou qualquer situação em que a trilha é pouco marcada). Você pode rastrear diferentes sinais: vegetação danificada artificialmente (cortada, quebrada ou desfolhada), pegadas e outros sinais humanos, ou os sinais da trilha propriamente dita.
De qualquer maneira é importante você identificar o padrão dos sinais, pois se você cruzar com uma outra linha tem que saber escolher continuar na qual você estava. Tenha em mente que os mateiros que abriram ou conservam a trilha têm características pessoais. Uma trilha mantida por um grupo de mateiros tende a apresentar características (portanto os sinais) diferentes daquelas mantidas por outros. Também é bom você conseguir identificar quão velhos ou novos são os sinais.
A vegetação cortada ou quebrada recentemente apresenta características distintas daquela que sofreu o mesmo processo a 4 ou 5 dias. Folhas soltas verdes, murchas ou secas são uma forma fácil de inferir, mas mesmo as pegadas frescas podem ser diferenciadas das antigas. Um fato curioso aconteceu na E.M.A.-99: a forte equipe neozelandesa entrou na trilha da Caverna do Diabo com horas de vantagem sobre os demais concorrentes. Eles rastrearam bem a trilha até se depararem com uma bananeira que havia caído exatamente no eixo da trilha, com as folhas voltadas para quem estivesse competindo.
Os Kiwis encontraram uma brecha na mata naquele ponto e entraram para esquerda, seguindo o rumo fornecido como dica pela organização. Com isso, acabaram saindo da trilha e desceram um vale fechado até que ficou evidente que a passagem não era por lá. Então, fuçaram vários outros lugares até que resolveram voltar tudo e começar de novo. Nisso, a minha equipe, a Pedal Power e a Lontra Radical adentraram pelo terreno que os Kiwis já haviam batalhado. Agimos como uma única equipe de 9 pessoas, tomando todas as decisões em conjunto. Seguimos rastreando os sinais e por isso fizemos o mesmo desvio que os kiwis e fomos parar exatamente onde eles haviam ido. Chegamos até a encontrar polaina da Tania (competidora neozelandesa) no fim do caminho.
Rastrear os sinais foi o nosso erro, principalmente sabendo que os kiwis não haviam encontrado a passagem. Cansados, fomos dormir às 4:30 da madrugada e voltamos à luta duas horas mais tarde. Com a energia renovada e cabeça fresca fizemos o caminho de volta até o ponto onde tínhamos a certeza de estar sobre a trilha. Então esquecemos os sinais como pegadas e vegetação danificada e passamos a rastrear apenas a trilha.
Bingo!!! Assim que chegamos à bananeira caída identificamos nosso erro, e passamos, as 3 equipes, a liderar a prova. Foi um erro incrível dos Kiwis, pois eles chegaram lá na frente de todos, sem influência das marcas deixadas pelas equipes concorrentes. Se eles estivessem rastreando a trilha e não os sinais secundários (palmiteiros?), teriam aberto uma margem sobre os demais que provavelmente os levaria a uma vitória folgada. Esse fato ilustra bem que o trabalho de rastreamento é importante, mas também fica evidente que é igualmente importante definir corretamente os elementos a serem rastreados.
Entretanto, para finalizar esse assunto, deixarei uma consideração sobre como eu acho que as pessoas devem consultar uma carta topográfica: acredito que praticamente todos saibam encontrar informações isoladas numa carta topográfica como cota de altitude, linhas de drenagens, divisores de água, vias de acesso, vegetação, declividade, feições secundárias.
Enfim, (quase) tudo que traduz a topografia local na época em que o mapa foi confeccionado. Eu faço a analogia destas feições isoladas como se fosse letras de alfabeto de uma língua qualquer. O fato de conseguir distinguir a letra “A” do “B” não significa que você conhece a tal língua. A interação microambiental (em torno, ou onde você está) destas feições forma as palavras dessa língua. Conhecer algumas palavras já é alguma coisa, mas você ainda está longe de conhecer a língua como todo.
Para conseguir entender a linguagem cartográfica você deve estar capacitado a decifrar frases inteiras, que é a visualização macroambiental ou interpretação do relevo com todas as informações, para poder saber de onde você veio, onde você está (e como está inserido no relevo) e para onde você vai (quando digo isso não estou falando de azimute, mas do relevo).
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