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Tecnologia dos Tecidos e Vestimentas |
Foto: Luíz Makoto Ishibe. Tome bastante cuidado com os seus pés! Chegamos, depois de tudo a um assunto que se estudado a fundo pode até resultar em uma tese. Temos visto pessoas sofrendo com problemas nos pés, principalmente bolhas, trincheiras, fascite plantar e fungos nas corridas de aventura. O problema é evidente especialmente nas provas mais longas e/ou realizadas nos locais mais úmidos onde os pés ficam constantemente encharcados.
Nem é preciso ressaltar que o trabalho deveria começar com a prevenção. Utilização de calçado e meias adequados é o primeiro passo na prevenção dos problemas.
As medidas podem ainda ser estendidas para trabalhos de preparação dos pés que podem ser feitos em dois estágios:
Primeiro você deve manter os pés em ordem antes da data da prova. Lixar os calos e manter os trabalhos de pedicure é muito importante pois a pele macia, bem hidratada e com boa elasticidade previne melhor os problemas como delaminação e bolhas. Já repararam que as mulheres – que normalmente cuidam melhor dos pés no cotidiano – normalmente conseguem manter os pés em melhores condições do que os homens nas provas longas?
Apesar de já ter comentado sobre calçados e meias quando falei dos materiais, ressaltarei mais alguns adjetivos que considero importantes nestes produtos. Mas antes disso, quero também falar de 4 problemas relativamente comuns em corridas de aventura: bolhas e/ou delaminação, fascite, perda de unhas e fungos.
Bolhas e delaminação: As bolhas são manifestações decorrentes de problema de atrito de uma determinada parte da pele com o material que envolve o pé – normalmente meia. No entanto, esse problema de atrito não deve ser considerado como algo decorrente da interação da meia com os pés pura e simples, pois a qualidade e o formato do calçado também é muito importante no conjunto, isso sem falar na umidade e sujeira que entram no sapato (terra, lama, areia, etc.).
Nos ambientes onde os pés ficam constantemente úmidos e a pele fica mole e enrugada – com aquele aspecto inconfundível de ameixa seca – o problema é ainda maior. A pele fica naturalmente mais fragilizada, e se você for uma dessas pessoas que tem um casco endurecido na sola dos pés (muita gente imagina que ter pele grossa e endurecida é vantajoso) pode até acabar pulando o estágio de bolhas e ir direto para a delaminação, que consiste em arrancar essa pele endurecida (ou pelo menos uma parte dela) como se fosse casca de mexerica.
Uma forma de minimizar o atrito é enfaixar de antemão os pontos cruciais, como a região de calcanhar, dedo mindinho e o seu vizinho, e a famosa área que corresponde entre o arco e os dedos, incluindo as duas laterais correspondentes. Pessoalmente, não gosto de utilizar esparadrapos para esse fim. Prefiro materiais mais finos e elásticos como Sport Tape. Um outro procedimento que ajuda é manter os pés bem lubrificados com a vaselina para eliminar os pontos de atrito.
Em termos de manutenção, é bom secar os pés sempre que for possível e passar cremes impermeabilizantes (como Baumex e própria vaselina). Igualmente importante é fazer tratamento para manter os pés em boas condições (hidratante, Hipoglos) e evitar a proliferação de culturas bacteriana (solução anti-séptica como Povidine) e fungos (Tralen, Micostil, etc.).
Caso você não consiga evitar a formação de bolhas mesmo assim, existe um consenso entre os ortopedistas de que as bolhas devem ser drenadas e tratadas com solução anti-séptica. Estas operações podem ser efetuadas com uso de uma seringa. Se a bolha rasgar eles recomendam que você remova a pele, desinfete e cubra a área com algum produto como Second Skin (SPENCO) ou compressas não aderentes, e certificar-se de que essa cobertura ficará no devido lugar utilizando Sport Tape ou faixas auto-aderentes (Bandagem Elástica Coban – 3M).
Fascite plantar e microlesões da sola: Este é um problema não muito evidente, que, no entanto, tira muita gente das provas longas. A fascite é basicamente a inflamação de membranas que envolvem os músculos, genericamente chamadas de fáscias, e manifesta-se nos pés devido ao trauma causado por pressão sucessiva por longo período de tempo. Digo que este problema não é evidente, pois normalmente as pessoas acabam desenvolvendo as bolhas antes da manifestação da fascite. Assim, quem não tem conhecimento de causa pode achar que toda aquela dor está sendo causada pelas bolhas ou problemas coligados.
A fascite pode manifestar-se por si só ou estar associada com outros tipos de microlesões causadas pela pressão puntual na sola dos pés, muito comuns quando se faz longas caminhadas sobre terrenos pedregosos. Esse problema pode ser minimizado quando se utiliza calçados que possuem o solado mais firme e distribuem bem a pressão, mesmo puntual, uniformemente pelo solado do pé (incluindo o calcanhar).
Se você estiver sentindo uma dor generalizada na sola (ou pelo menos numa parte da sola) e o pé estiver inchado, com ou sem bolhas, pode estar certo de que você está com fascite. E sendo este um problema relativamente comum, sugiro que levem calçados com número maior do que o do cotidiano nas provas longas, incluindo sapatilha de bike. Já repararam quantas pessoas estavam pedalando de papetes no E.M.A ou na Elf?
Temo muito mais a fascite do que as bolhas. Já tive esse problema no estágio avançado e é simplesmente incrível se dar conta da intensidade de dor que apenas dois pés podem te causar. A minha força em enfrentar esse problema vem, em parte, das palavras do Admir: Os pés estão ruins. Mas a cabeça está boa e, se isso não for suficiente, ainda tenho os joelhos.
Mas não quero que pensem que eu ou Admir gostamos de enfrentar a dor simplesmente pelo desafio. Temos aprendido um pouco mais a cada dia e faremos tudo para poder evitar esse tipo de problema – aliás, um desafio bem maior do que simplesmente enfrentar a dor – nos projetos futuros.
Para finalizar, sendo a dor da fascite tipo da dor que possa ser classificada como, digamos, dor muscular grosseira, existe uma forma relativamente simples de atenuar a sua manifestação: mande um ou dois comprimidos de Advil goela abaixo e provavelmente você vai conseguir se manter em pé por 4 a 6 horas. Depois disso? Ora, tome mais um ou dois comprimidos e procure curtir essa dorzinha mais algumas horas. Não é isso que você sempre quis?
Perda de unhas: A perda da unha do pé em corridas de aventura (ou atividades que envolvem caminhada) acontece normalmente devido a trauma causada por problema de pressão sucessiva do conjunto meia/calçado sobre a unha. Isso pode acontecer por diversas razões: Tamanho do calçado incompatível com o do pé, forma do pé incompatível com o shape do calçado, má qualidade da meia – aquelas que tendem a formar dobras com o uso ou quando molhada, sujeira - principalmente lama e/ou areia que tendem a acumular na região de ponta dos pés aumentando o volume, ou até descuidos do tipo não manter as unhas cortadas ou não apertar devidamente o cadarço de forma que os pés tendam a deslizar para a frente do calçado nas descidas. Considerando-se a irregularidade do terreno das trilhas é recomendável utilizar os calçados um pouco maiores do que o que você normalmente utilizaria para correr.
Esse é um problema que a forma mais eficiente de resolver é a prevenção. Procure adquirir um bom conjunto de calçado e meias. Note que quando digo bom conjunto estou falando não apenas da qualidade do produto em si, mas também a compatibilidade de tamanho e formato.
Fungos: Micoses e frieiras já estiveram presentes na vida da maioria dos atletas, pelo menos em alguma fase da vida. Assim sendo, a maioria das pessoas sabe o quanto esses funguinhos podem nos incomodar, mas quem esteve na elf no Nordeste Brasileiro sabe que esses seres supostamente inferiores podem ser muito piores. Muitas pessoas ficaram literalmente sem a pele dos pés devido a algum tipo de fungo, sendo obrigadas a abandonar a prova.
A melhor maneira de evitar esse tipo de problema é manter os pés secos sempre que possível e utilizar meias que criem ambientes menos favoráveis para instalação e procriação destes microorganismos. Fibras naturais como algodão e lã, nem pensar.
Existe também um procedimento preventivo bastante eficiente que é a utilização periódica de cremes fungicidas como Tralen, Micostil e outros afins.
Bem, agora que falamos um pouco dos problemas, vamos voltar aos calçados e meias, que são produtos que estão diretamente relacionados com o estado dos pés.
Meias: A importância da meia como produto que ajuda na preservação do estado dos pés deveria ser evidente, mas quando vejo a quantidade de pessoas calçando modelos ordinários de algodão concluo que nem todos chegam a pensar no assunto. Mesmo os modelos clássicos supostamente desenvolvidos para atividades outdoor em lã não são recomendáveis para atividade de longa duração, principalmente em ambiente úmido.
Basta dizer que a lã pode absorver até 30% do seu peso em umidade. Isso significa que numa atividade normal em um ambiente seco o seu pé pode encontrar um ambiente confortável livre da umidade (pois o seu suor está sendo absorvido pela lã). Mas se pensarmos em uso prolongado, veremos que o suor que você elimina pela pele ficará retido na meia até o ponto de saturação, e com isso acabará criando um ambiente favorável para proliferação de microrganismos e fungos. De quebra você estará com os pés envolvidos em material que tem dificuldade em secar e é pesado (o peso do produto mais 30% em umidade). O algodão, em termos gerais, é ainda pior. Eu utilizaria meias de fibras naturais apenas em ambientes secos e com a possibilidade de trocas constantes.
Do outro lado estão as fibras sintéticas, que possuem uma característica interessante: mesmo partindo de uma matéria prima bruta, a tecnologia pode produzir fibras têxteis com características distintas que, sozinhas ou combinadas, podem resultar em produtos interessantes. Por exemplo, Olefina (olefin) é um nome genérico para uma variedade de fibras que possuem o polipropileno como matéria prima. O mesmo acontece com a Lumiza em relação a acrílico e assim por diante.
O poliéster (Não confundir com o nylon, que é poliamida) é um exemplo de uma matéria prima interessante. O homem foi capaz de criar diferentes patentes em termos de tecnologia de fibras têxteis, mas todos eles conservam um adjetivo inerente ao produto que é uma ação antibiótica de caráter permanente. Isso ocorre em parte devido ao fato desse produto ser extremamente hidrófobo (assim como polipropileno). Como todos os seres vivos que existem nesse mundo onde reina a ciência como conhecemos dependem fundamentalmente da água, uma superfície hidrofóbica acaba resultando em um ambiente não favorável à instalação e proliferação de culturas.
Esse tipo de ação é observado em maior grau nas fibras sintéticas, mesmo na Lumiza, que é uma fibra com uma certa capacidade de absorção de umidade. Como essa absorção ocorre nos microporos e não na estrutura da fibra, o comportamento é muito diferente se comparado com a lã, por exemplo, começando pela facilidade de secagem.
Outra característica importante a considerar é a textura das microfibras sintéticas modernas, que conseguem atingir a maciez de uma boa lã, porém com uma resistência muito maior à saturação. Isso resulta em produtos que preservam pelo menos uma boa parte da sua personalidade (ou características) mesmo molhados ou após uso prolongado, atenuando o problema de atrito e evitando a formação de bolhas.
Até onde eu tenho o conhecimento, a maioria das pessoas que tiveram problemas acentuados de bolhas e fungos na elf (notem que não conversei com todos e o que aqui escrevo está longe de ser um trabalho científico) estavam utilizando meias de algodão ou lã, enquanto a grande maioria das pessoas que tiveram pouco problema estavam utilizando meias de fibras sintéticas.
Apenas para finalizar este assunto, a textura e a maciez do produto também é uma característica a ser considerada. Uma meia fina de ciclismo ou voltada para correr maratona, por mais técnico que seja o material, quase nunca é adequada para provas de aventura de longa duração. Eu tenho utilizado meias da série Ultimax, da Wigwam Mills.
Calçados: Dificilmente alguém vai desenvolver bolhas ou delaminação nos pés cavalgando, pedalando ou remando. Esses problemas são quase sempre decorrentes de caminhadas e/ou corrida (trote). Assim falarei apenas de calçado para caminhada/corrida.
Existem pessoas que gostam de botas enquanto outros gostam de tênis. Uns preferem meio cano enquanto outros cano baixo. Tem gente que não abre mão dos calçados de couro enquanto outros preferem materiais sintéticos... Descontando o gosto pessoal, ainda existem algumas características que merecem atenção:
Shape e tamanho: O formato e o tamanho do pé são características pessoais e obviamente existe a necessidade de se encontrar um calçado que possua um bom shape e tenha um tamanho compatível com os seus pés. Assim sendo, nem sempre é aconselhável seguir as indicações de outros corredores, pois o formato dos pés diferem de pessoa para pessoa. Nas provas longas, com possibilidade de manifestação de problemas como fascite, é bom estar preparado com modelos maiores do que o seu pé para compensar a inflamação generalizada. Certifique-se de que a ponta dos pés não fique pressionada no bico dos calçados, principalmente nas descidas. É muito fácil acabar perdendo as unhas ou desenvolver bolhas nos dedos mindinhos se estiver utilizando calçados curtos.
Sola e entre-sola: Em geral eu gosto mais de calçados macios, bem no estilo de tênis de corrida. No entanto, nos trajetos longos e/ou pedregosos o conjunto de solado muito macio tende a judiar mais dos pés. Isso ocorre devido ao fato da planta do seus pés receberem pressões localizadas de todas as pedras e outras irregularidades da superfície sobre a qual se caminha. Imagine que aquilo que poderia ser interpretado até como uma massagem, após milhares e mais milhares de passos, pode acabar se tornando uma causa de lesões internas. Eu tive problema deste tipo na elf.
Nas provas mais longas ou que percorrem terrenos muito acidentados ou pedregosos, recomendo a utilização de calçados que, ainda que possuam entre-sola macia, tenham o solado um pouco mais rígido para distribuição mais uniforme das pressões localizadas.
Mais uma coisa a considerar sobre a sola do calçado é o material (tipo de borracha ou polímero) que é empregado. As borrachas recicladas ou de alta densidade são mais firmes e duráveis, mas tendem a ser lisas e escorregadias. As borrachas e polímeros mais porosos tendem a ser mais macios e aderentes, mas desgastam mais.
Material: Procuro sempre utilizar calçados leves, confeccionados predominantemente com produtos sintéticos, pois valorizo o conforto e a leveza mais do que a durabilidade. Isso não quer dizer que eu utilize produtos de má qualidade. Pelo contrário, tenho buscado tênis com tecnologia de ponta que nas lojas custam em geral mais caros do que botinhas de caminhada.
Considero um adjetivo muito importante a facilidade de secagem dos calçados (além do conforto em si evita bolhas e fungos), e por esta razão descarto o uso de calçados de couro a não ser que esteja em ambiente alpino ou em localidades onde exista a possibilidade de caminhar no meio de vegetação com muito espinho.
Um fato curioso: Já vi muita gente fazendo comentário do tipo – esse calçado é bom pois é de Gore-Tex. Bem, não se enganem, os calçados de GTX são específicos e de uso relativamente restrito. Primeiro: eles são mais quentes, não sendo recomendáveis para o nosso clima (principalmente para atividades aeróbicas de alta intensidade podendo até acentuar os problemas como fungos). Segundo: se a água entrar pelo cano ela não sai a não ser evaporando, ou seja, não serve para locais com muita chuva ou percursos com muitos riachos. Terceiro: se molhar demora bem mais para secar. Quarto: custam mais caro....
Até poderia escrever mais um monte de coisas, mas acho que a idéia geral está aí: Aquele que souber se preservar tem uma grande chance de se dar bem nas corridas de aventura. Muitas vezes é mais importante diminuir o ritmo de prova (entenda-se como tempo geral, incluindo descanso, curativo, manutenção, alimentação, etc.) para manter o corpo em bom funcionamento. E este conceito vale para todos os equipamentos (e animais) de progressão que você utiliza, como MTB e caiaque. Quantas equipes perderam tempo em provas por ter partido corrente da bicicleta ou entortado gancheira? A minha equipe perdeu a oportunidade de disputar a liderança do E.M.A.-99, entre outras coisas, porque rachamos o casco da canoa numa pedra (corredeira) e tivemos que carregar um boi de mais de 40 kg por cerca de 20km. Então é importante treinar as habilidades e adquirir a sensibilidade para detectar o limite dos equipamentos e cuidar para que eles estejam em condições de uso.
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