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Assunto: Escalada em Rocha
Título: Divisões de esportes de escalada
Autor: Luiz Makoto Ishibe

O termo alpinismo tem sido utilizado com freqüência para designar a atividade através da qual se praticam os esportes de escalada no Brasil. No sentido técnico, o uso da palavra está errado. O termo genérico, que engloba o segmento técnico da atividade em questão, deveria ser ‘esportes de escalada’. Quando se quer utilizar um termo genérico para denominar os esportes praticados em ambiente montanhoso, talvez seja mais adequado usar o termo ‘montanhismo’. 

Em inglês, o termo mountaineering engloba atividades que buscam a subida de montanhas - incluindo caminhadas em altitude com o objetivo de chegar ao cume ou travessias de grandes maciços. Enquanto isso, o alpinism refere-se a escaladas técnicas feitas em montanhas com características alpinas. No entanto, mesmo sendo um dos segmentos mais técnicos entre os esportes de escalada, a prática da escalada esportiva stricto sensu não é considerada mountaineering, muito menos alpinism.

Hoje, termos como ‘montanhismo’ ou ‘esportes de escalada’ são quase tão genéricos quanto dizer atletismo ou corrida de carros. Da mesma forma que existem os 100 metros rasos, salto em distância, arremesso de peso, maratona e tantas outras modalidades no atletismo, no montanhismo também existem várias divisões de acordo com as características de escalada e do ambiente em que se pratica o esporte.

E da mesma forma que existem especialistas em 100 metros rasos, que nada conseguiriam fazer no salto em altura ou maratona, no montanhismo também existem especialistas que dominam uma ou algumas áreas específicas. É praticamente impossível, mesmo no cenário mundial, encontrar alguém que consiga escalar vias esportivas de 5.14, mandar um bom A5 yosemiteano, encadenar o Moonlight Butress ou Salathé Wall em livre, ensacar as vias em gelo e mistas de concepção moderna, como o trio Terminator, Replicant e Sea of Vapors ou Vail Classics, como Anphibian e Fat Man and Robin, fazer grandes conquistas alpinas em locais remotos, como a Patagônia, Karakoran e Norte do Canadá e ainda por cima colecionar cumes de montanhas com mais de 8000 metros.

Bouldering

O Bouldering consiste na prática da escalada com problemas técnicos de pequena dimensão sem o uso de equipamentos de segurança. As seqüências de escalada nessa categoria em geral não passam de alguns metros (existem alguns boulders clássicos cuja metragem alcança dois dígitos), e isso possibilita que não sejam empregados equipamentos durante a atividade, pois o escalador pode saltar de volta para o chão sempre que quiser. Isso não significa que o risco não existe. Em muitos casos, os procedimentos de segurança são fundamentais para o escalador. Saltar de cinco ou seis metros de altura e cair em pé em cima do colchão de amortecimento nem sempre é fácil. Também se deve considerar que os seguradores precisam ser bem treinados, pois se eles se posicionarem de forma incorreta, podem acabar entrando na linha de queda (ou salto) do escalador.

Essa prática é um meio-termo entre escalada real e treino. Por essa razão, as áreas clássicas para a prática de bouldering são normalmente locais de fácil acesso. Muitas vezes elas estão logo ao lado de áreas de camping ou na proximidade de bases das escaladas mais tradicionais. Assim, no fim do dia, apenas para dar uma treinadinha extra, pode-se praticar esse tipo de escalada.

Nas seqüências um pouco mais longas é comum uma ou duas pessoas ficarem embaixo para auxiliar o escalador na hora do salto ou queda para que ele não caia de mau jeito. Normalmente a atividade é praticada por grupos de amigos, mesmo por que, apesar de serem curtas, as seqüências de bouldering são normalmente muito difíceis. Assim sendo, a prática rotativa em grupo é boa tanto para tornar a coisa mais divertida quanto para otimizar o tempo de descanso.

Existem alguns problemas clássicos que, mesmo executados em locais de alto fluxo de escaladores, apenas uma ou duas pessoas conseguiram superar até hoje.

Escalada livre: tradicional e esportiva

A escalada livre, como o próprio nome diz, é aquela na qual a progressão se faz por meio dos recursos naturais inerentes ao ambiente em conjunto com a aptidão física do escalador. Para isso, o escalador faz uso da sua técnica, força e experiência para aproveitar as fendas, agarras, saliências, rugosidades, placas, frisos, enfim, de todas as feições naturais da superfície rochosa que possam ser utilizadas como apoios (segurado ou pisado) para a progressão.

A dimensão da via ou rota de subida varia muito, podendo ter apenas alguns metros ou até mais de 1.000 metros. As vias longas são fracionadas em etapas de subida genericamente chamadas de enfiadas ou esticões.

Para otimizar o rendimento é comum o uso de sapatilhas e/ou botinhas de solado liso e aderente, bem como o uso do carbonato de magnésio (simplesmente magnésio ou chalk) como recurso para manter as mãos secas contra a transpiração.

Os equipamentos de segurança consistem em cinto-cadeirinha, corda, freio para segurança e descida, mosquetões, fitas de nylon de diferentes dimensões e equipamentos de proteção móvel em fendas (esse último grupo de materiais não entra na escalada esportiva). Nas rochas sem fendas são instalados pontos de proteção de caráter permanente.

Esses materiais são utilizados apenas para segurar o escalador no caso de uma queda, para montagem de paradas ou para efetuar a descida, não devendo influir diretamente no processo de progressão. 

A escalada livre esportiva, pelo menos na definição clássica, difere da escalada tradicional pela simplificação generalizada da prática no que diz respeito ao ambiente (não à dificuldade técnica). É praticada em superfícies naturais ou mesmo artificiais previamente preparadas,  onde os pontos de proteção já estão instalados (grampos, chapeletas, etc) e muitas vezes até os mosquetões de costura  estão conectados. A grande maioria das vias de escalada esportiva é de pequena dimensão (até 40 metros).

No entanto, utilizando a terminologia mais moderna, todas as vias inteiramente chapeletadas (proteções e paradas) são chamadas de sport climbing. Nesse sentido, mesmo as montanhas ou até regiões glaciais não escapam. A via The Great Canadian Knife, com mais de 600 metros em pleno Lotus Flower Tower é uma via de escalada esportiva.

Outra confusão que tem acontecido na definição da escalada esportiva é o padrão de grampeação. Muita gente tem argumentado que uma via de escalada esportiva tem que estar equipada com chapeletas ou grampos dispostos próximos um do outro. Este assunto ainda vai render muita discussão, pois o termo próximo ou distante é subjetivo. Existem muitas vias difíceis tanto na Europa quanto nos EUA, cujo padrão de grampeação é simplesmente assustador. Essas vias, genericamente conhecidas como Expo, são consideradas como esportivas por alguns, e por outros, não. A dificuldade dessas vias - que podem até ter mais de 10 enfiadas - já chegou consistentemente à casa dos 5.14.

Por sua vez, como o próprio nome diz, a escalada livre tradicional  é aquela realizada em ambientes (ou vias) onde a qualidade e a eficiência da segurança variam de acordo com a habilidade e a técnica do escalador. São escaladas em que o guia tem que instalar os pontos de proteção e, em muitos casos, ancoragens de pontos de parada. A maioria desses pontos, que no caso são chamados de proteções móveis, é instalada nas fendas naturais da rocha. Existem diferentes tipos de equipamentos desenvolvidos para esse fim. A escolha deles e a perícia na sua instalação refletem no grau de segurança do esporte.

A escalada livre tradicional é também, em determinados casos, chamada de adventure climbing. A sua prática está normalmente associada aos ambientes de montanha e a dificuldade maior nem sempre é a técnica. Em muitos casos o escalador tem que possuir um bom senso de orientação para conseguir encontrar o começo da via e a habilidade de encontrar a correta linha de ascensão. O planejamento é fundamental nas escaladas em locais remotos e ambientalmente complexos. Conhecimentos extras como, por exemplo, meteorologia, tornam-se importantes. A dificuldade técnica, ainda que seja um fator importante, não é um parâmetro fundamental. O desafio muitas vezes reside em conseguir simplesmente finalizar uma escalada complexa em um dia ou coisas assim.

Escalada artificial

Ao contrário da escalada livre, na escalada artificial a progressão é feita com o auxílio direto de equipamentos. Isso acontece tanto quando a configuração da superfície rochosa não permite a progressão livre quanto nos locais onde, mesmo havendo possibilidade técnica de se executar a progressão livre, esse procedimento seja por alguma razão inviável.

Muitas pessoas acreditam que a escalada artificial é um tipo de escalada em que o escalador progride se dependurando de grampo em grampo, mas esse conceito está muito longe da realidade. A escalada artificial pode ser extremamente meticulosa, técnica, instável, cansativa e até mentalmente desgastante.

A seqüência básica consiste em instalar uma peça de progressão - não necessariamente uma peça de proteção - na rocha, conectar-se a ela por meio de uma amarração (fitas de nylon ou similar) de auto-segurança e estribos e progredir no estribo até instalar o próximo ponto.  A operação se repete até o final.

Uma outra diferença em relação à escalada livre está nos equipamentos. Na escalada artificial complexa necessita-se muito mais materiais, além de equipamentos normalmente não utilizados na progressão livre. Existem casos em que o guia carrega 20kg ou mais em materiais para iniciar o esticão.

Big Wall

Na classificação norte-americana as vias de big wall são classificadas como Grade V e VI. Isso significa, via de regra, que uma equipe composta de escaladores bem preparados e que ainda não conhecem a referida via deve levar pelo menos dois dias para completar a escalada.

Essa definição é dúbia, uma vez que o desenvolvimento do esporte verificado nos últimos anos resultou no surgimento de uma classe de superescaladores que entra nas vias clássicas, definidas como Grade VI,  para algumas horas mais tarde concluir a tarefa. Mas ainda assim a definição continua válida para nós, que somos a grande maioria dos pobres mortais.

Esse tipo de ascensão normalmente envolve a escalada artificial, ainda que não seja na sua totalidade. A complexidade logística é consideravelmente maior, pois além da habilidade técnica do escalador o fator planejamento assume um peso importante. Basta imaginar que você precisa carregar toda a sua água, comida, material de bivaque e os equipamentos parede acima. Além disso, o planejamento em relação aos aspectos meteorológicos passa a ganhar peso muito grande, especialmente nas escaladas mais demoradas (por vezes mais de uma semana).

Escalada alpina

Escalada alpina ou alpinismo é a modalidade de escalada - invariavelmente técnica - praticada em ambiente alpino. Isso significa que o escalador tem que ter conhecimento e habilidade para cruzar geleiras, escalar rampas de neve, gelo vertical e rocha. E como se isso não bastasse, muitas vezes esse tipo de escalada é praticado em locais onde a altitude é fator preponderante e a meteorologia é complexa.

Muitos consideram a escalada alpina como a categoria técnica mais completa e exigente dentro dos esportes de escalada. Mas novamente essa definição é subjetiva, pois escalar uma via clássica com duração de uma manhã, na região de Chamonix, pode ser considerado escalada alpina tanto quanto realizar uma conquista de uma parede nunca antes escalada nas remotas Ilhas Baffin ou numa das superparedes da Patagônia.

O risco inerente ao ambiente nesse é maior nesse tipo de escalada, pois a atividade é executada em terrenos que, entre outros fatores, apresentam gretas cobertas, potencialidade de avalanchas, possibilidade de tempestades violentas e frio extremo.

Escalada em gelo e escalada mista

Escalada em gelo é um capítulo à parte, especialmente se estamos tratando do segmento das cascatas e vias mistas de concepção moderna.

Esse segmento está ganhando espaço cada vez maior na mídia e o fato de termos, em algumas localidades, a formação dos Ice Parks – resultado da criação artificial de cascatas através da instalação de mangueiras nas bordas dos penhascos e canyons durante o inverno – tem tornado muito popular essa modalidade de escalada, que até o começo da década de 90 era restrita a poucos escaladores.

Para progredir no gelo, o escalador tem que se equipar com ferramentas que lhe permitam fixar-se à superfície gelada. Para isso, instalam-se os cravos chamados crampons no solado da bota e também se utiliza um par de piquetas - as famosas machadinhas de alpinistas - nas mãos. É correto afirmar que a escalada em gelo é, pelo menos na média, uma atividade muito mais exigente no aspecto atlético do que a escalada em rocha.

Assim sendo, ao contrário do que ocorre na escalada livre em rocha, o escalador sempre utiliza equipamentos que possibilitam o contato entre o seu corpo e o gelo. Uma outra grande diferença está no fato de que numa escalada em gelo, devido ao comportamento estrutural da superfície em questão, o escalador normalmente acaba quebrando o gelo e derrubando estilhaços e até blocos. Na rocha seria simplesmente impensável sair escalando e derrubando blocos. Por essas e outras razões, o uso de capacete e a técnica de corda dupla são praticamente regras na escalada em gelo.

Nas vias mistas de concepção moderna, a habilidade de escalar a rocha munidos de equipamentos para o gelo é fundamental. A técnica de utilizar agarras e fendas com crampons e piquetas é conhecida pelo termo Dry Tooling e é considerada por muitos o ponto máximo em formação técnica.

Montanhismo

Em inglês a atividade que consiste em alcançar regiões montanhosas sem muita exigência técnica é chamada de mountaineering. Existe uma diferença grande entre essa atividade, que quase sempre consiste em uma caminhada pelas encostas das montanhas com eventuais passagens um pouco mais técnicas, e o que eles chamam de climbing.

Nesse contexto, subir o Aconcagua, o Kilimanjaro ou vulcões equatorianos pelas vias normais seria chamado de montanhismo, assim como as ascensões de uma boa parte das montanhas do Perú ou Bolivia pelas vias normais.

Entretanto, aqui no Brasil, o termo montanhismo tem muitas vezes sido empregado de uma forma mais genérica englobando desde as caminhadas até as escaladas técnicas.  
Foto: Luiz Makoto Ishibe. Illimani, Cordilheira Real, Bolívia.

Alta-montanha

O termo ‘alta-montanha’ está vulgarizado no Brasil. É comum uma pessoa que vai para uma montanha nevada dizer que está indo para alta-montanha, mesmo que esteja indo para o curso de gelo em Bariloche com eventual possibilidade de escalar o Cerro Tronador.

A definição técnica do termo High Altitude Climbing (HAC) é mais ou menos a seguinte: atividade de montanhismo ou escalada em ambientes nos quais a hipoxia representa perigo potencial real. Assim sendo, não se considerariam HAC aquelas atividades desenvolvidas em ambientes onde a hipoxia manifesta-se basicamente apenas sob a forma de desconforto.

Mais uma vez este termo é dúbio, pois existem casos registrados de doenças de altitude, incluindo edema pulmonar, até nas estações de esqui do Colorado, EUA. Mas considerar esses casos para definir o termo seria tão insensato quanto dizer que andar na rua é uma atividade de risco, já que existe a possibilidade de ser atingido por uma bala perdida ou por um carro desgovernado.

O consenso para definir a cota mínima do HAC está em torno de 6.000m. 

Escaladas híbridas

As diferentes categorias de escalada foram tratadas até agora de forma mais ou menos independente, mas na prática elas podem ser encontradas em conjunto e isso não é raro. Por exemplo, é fácil encontrar em locais como Karakoram, imensas torres de granito que possibilitam a realização de escaladas do tipo Big Wall, mas o ambiente é alpino e o seu cume está a mais de 6.000m de altitude. Poderíamos chamar uma escalada dessas de big wall alpino em altitude.

Também é relativamente comum encontrar escaladas em gelo no meio de uma via alpina. O mundo da escalada consegue ser tão vasto quanto queira. A dificuldade maior para poder se tornar um escalador que consiga atuar nas diferentes áreas está no processo de aprendizagem e treinamento, que requer muito tempo de preparação, dedicação e experiência.

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