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Assunto: Escalada em Rocha
Título: Fator de queda
Autor: Luiz Makoto Ishibe

“Já deveria ter parado”, pensei comigo mesmo. Vi o céu passando e logo concluí que estava virando de cabeça para baixo. Imaginei que a corda estivesse partida e que eu estava voando da penúltima enfiada da Via Maestri do Cerro Torre. Seria o fim da minha história numa viagem de 1500 m em queda livre até a geleira.

Então, senti uma desaceleração e vi ao meu lado a cara do Thor, guia profissional de montanha e amigo pessoal com quem estava empenhado naquele projeto. Ele estava pálido e imóvel. Eu sabia que havia voado um bocado e, vendo o meu companheiro naquele estado, pensei comigo mesmo: “Será que passei mesmo para outro plano?”.

Finalmente ele abriu a boca e disse:
- Acho que você levou uma vaca de 30 m (100 feet air). Você está bem? Podemos descer se preferir...

Dei uma sacudida no esqueleto e não senti nada de errado: “Descer? Nem pensar!”. O Thor estava assustado com o tamanho da minha queda, mas felizmente havia sido uma vaca de baixo fator.

Menos de uma hora mais tarde seríamos mais dois no seleto grupo de menos de 100 pessoas que haviam pisado no cume do Cerro Torre até aquela data. O fator de queda é o número que avalia a gravidade teórica de uma queda. Teórica, pois esse número não consegue prever condições particulares de cada secção de uma via, como a verticalidade, presença de platôs, bicos de pedras, árvores e outros elementos que podem danificar a corda ou em que se pode bater durante a queda.

O fator de queda indica basicamente a qualidade do amortecimento em relação ao tamanho da queda. Considerando-se o comportamento das modernas cordas dinâmicas desenvolvidas para esportes de escalada, pelo menos no plano teórico, quanto menor a queda em relação ao comprimento da corda ativa, mais segura é a queda (grande amplitude de deformação de amortecimento da corda em relação ao pequeno impacto).

Esse número é obtido através da divisão da amplitude da queda pelo comprimento total da corda útil que se tem para amortecer o impacto (ver figura abaixo). Também no plano teórico, esse número assume o valor máximo de 2. Na prática, considerando-se que jamais se trabalha com a corda esticada e  somando-se a elasticidade, o fator de queda pode assumir valores ligeiramente maiores.


O que é interessante notar é que em quedas de mesmo fator, independentemente de sua amplitude, a energia gerada pelo impacto no ponto de proteção é absolutamente a mesma. Isto é, a carga que os equipamentos instalados no último ponto de proteção recebe é exatamente igual em uma queda de 3m com 9 m de corda para amortecimento ou noutra de 15m com 45m de corda (ou qualquer outra queda de fator 0,3). Obviamente, essa afirmação só vale se considerarmos o mesmo escalador caindo com cordas que tenham características absolutamente idênticas.

Enfim, a conclusão que se pode tirar é que nem sempre uma queda de fator baixo é uma queda segura. Afinal pode-se bater num platô, bico de pedra, grampo, ou outro tipo qualquer de obstáculo na linha de vôo. Mas também se conclui que as quedas de fator elevado são invariavelmente sérias. Mesmo que o escalador saia ileso - e normalmente sai - o desgaste no equipamento, principalmente da corda, é considerável.

É por isso que quando uma pessoa começa a escalar uma secção da via no papel de guia deve sempre procurar um ponto de proteção firme. Cair sem antes ter passado uma costura significa submeter os equipamentos e o seu próprio corpo a um impacto de fator 2. Nessas condições, mesmo uma quedinha de 3 ou 4 m é séria. Por outro lado, levar um Big Air de 30 m num final de enfiada como aconteceu comigo no Cerro Torre (queda de fator em torno de 0,8), pelo menos no aspecto técnico, não é tão ruim assim.

Al. dos Nhambiquaras, 946 - Moema - São Paulo - Tel.: (11) 5052-8082