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Assunto: Escalada em Rocha
Título: Padrão de segurança e o ponto de comprometimento dos equipamentos
Autor: Luiz Makoto Ishibe

Existem diferentes padrões de segurança que buscam uma regulamentação para a utilização dos equipamentos nos esportes de escalada.

Um padrão tradicional, no sentido histórico, foi estabelecido com a base nas sugestões da União Internacional das Associações de Alpinismo (UIAA). Essa regulamentação foi adotada universalmente e passou a ser conhecida como padrão UIAA.

Apesar de já ter ditado as regras, o padrão UIAA, hoje, é considerado mais como uma referência. A Comunidade Européia estabeleceu recentemente uma regulamentação mais moderna em termos de exigência técnica. Os materiais aprovados por ela recebem uma identificação com código CE, seguida de número de identificação no qual a data de fabricação está inserida em forma de um código. Assim, via de regra, qualquer material com aprovação CE permite a identificação do lote de fabricação.

A corrida por uma padronização cada vez mais confiável não parou por aí. Tudo indica que o próximo passo será o estabelecimento de um sistema estatístico chamado de Três Sigma pelo qual será possível garantir a confiabilidade da carga especificada em 99,98% dos materiais. Alguns fabricantes já estão trabalhando com esse sistema para graduar os equipamentos. Essas companhias, ainda que isso não seja exigido, utilizam o valor Três Sigma (média menos três vezes o desvio padrão) como carga especificada para submeter os materiais à apreciação da CE.

Outro ponto importante é o sistema de controle de qualidade e aferição que as companhias adotam. As melhores marcas testam os materiais em várias fases da fabricação, a começar pela matéria prima. Isso faz com que essas companhias consigam mapear e restringir os produtos ou processos que porventura possam resultar em problemas.

O teste final também é muito importante. Após sua produção, muitas companhias testam os materiais individualmente, muitas vezes com metade da carga especificada para o produto.

É importante explicar que carregar os equipamentos apenas por carregar, em muitos casos, não quer dizer nada. Os materiais têxteis, como cadeirinhas e fitas, podem ser aferidos em relação à confiabilidade da matéria prima empregada e das costuras. No entanto, em relação a equipamentos como os mosquetões, presume-se que um material novo em folha não deva quebrar com meia-carga a não ser que alguma falha muito grande tenha ocorrido. O importante é que o equipamento que testa os materiais tenha sensores eletrônicos que consigam analisar o comportamento de deformação (deformação completamente elástica, que não compromete o material estruturalmente) de cada peça e fazer análise estrutural. Se uma peça apresentar deformação que seja considerada fora do padrão, então o lote é analisado até que se encontre a razão do problema.

Uma companhia que possui esse tipo de sistema de controle de qualidade, com um comportamento consistente ao longo do tempo, pode submeter não apenas o produto, mas todo o processo à apreciação dos agentes da CE. Caso seja aprovada, essa companhia recebe o certificado PPD-CE Personal Protective Device  (Equipamento de Proteção Pessoal).

Diante disso, fica claro que você não pode comparar a carga especificada em dois equipamentos similares fabricados por companhias que utilizam diferentes sistemas de padronização, como Três Sigma e UIAA. É necessário que se conheça a forma pela qual os valores foram obtidos para se poder falar na qualidade ou confiabilidade dos produtos.

Existem pessoas que imaginam que o teste de meia-carda compromete os materiais causando ponto de fadiga. Se isso fosse verdade, qualquer mosquetão que segurasse uma queda estaria definitivamente comprometido por fadiga. O comportamento do alumínio temperado de boa qualidade é absolutamente neutro até uma carga muito próxima a do ponto de ruptura. Quando se atinge a carga crítica, o equipamento passa a sofrer uma deformação permanente antes de quebrar. Assim, qualquer equipamento que apresente deformação permanente (mosquetão cujo gatilho não fecha direito, por exemplo) de qualquer nível deve ser retirado de uso.

BASE DE CÁLCULO

Considerando-se uma pessoa normal e saudável, a capacidade máxima de aceleração violenta que se pode suportar por um curto espaço de tempo  sem sofrer danos ou distúrbios de caráter imediato (tontura, perda de consciência, etc) ou permanente (compressão na coluna, deslocamento de juntas, luxações, etc), está na ordem de 15G. Com esse dado na mão, quase todos os cálculos de segurança em esportes de escalada podem ser feitos, utilizando-se o peso de 80Kg como padrão teórico de um escalador normal (devidamente vestido e equipado).

Isso nos dá um valor também teórico de 1.200 Kg como sendo o máximo impacto (15 X 80 Kg) que esse corpo pode sofrer sem danos. Assim sendo, todo sistema de segurança deve ser montado de forma que, não importa o tipo de queda que o escalador sofra, a absorção do choque e o amortecimento reduzam a força de impacto de desaceleração para um valor igual ou inferior a 1.200 Kg.

Tendo isso em mente, chega-se à conclusão de que todos os equipamentos e materiais de proteção (exceto corda) deveriam, pelo menos teoricamente, suportar 2.400 Kg de impacto. Esse valor é puramente teórico, pois todo o esquema de segurança em escalada felizmente está longe de ser um sistema físico ideal de atrito zero. Existe muita dissipação de energia em todos os pontos do sistema, de forma que a energia de impacto de uma queda nunca se propaga na sua totalidade pela extensão da corda até o segurador. A corda, ainda que seja o objeto principal que atua no processo de amortecimento do choque da queda, não é o único agente envolvido na dissipação da energia de impacto.

Na realidade, numa queda de fator 1, menos de 60% da força de impacto propaga-se para baixo do ponto de costura que segurou o tombo. Assim, considerando-se a situação acima, mesmo numa queda em que o corpo do escalador sofre o impacto limite teórico de 1.200 kg, o ponto de costura não receberia mais do que 1.920 kg de carga.

Esse fato permite que, na prática, seja possível trabalhar com valores relativamente menores - hoje em torno de 20 a 24 kN para peças como mosquetões convencionais, 22 a 28 kN para mosquetões de trava e assim por diante. Uma boa parte dos equipamentos disponíveis no mercado, mesmo com a carga especificada em torno de 20 kN (e até menor), possuem aprovação CE.

Isso significa que o escalador deve conhecer as limitações de cada peça e ir dimensionando a proteção corretamente durante a progressão. Além do mais, é natural que todos os fabricantes adotem uma margem de segurança diferenciada para os materiais como as cordas e cadeirinhas em relação aos equipamentos metálicos. Os equipamentos têxteis sofrem mais desgaste com o uso do que aqueles confeccionados em duralumínio. No caso industrial, por exemplo, utiliza-se margem 4 a 5 vezes maior nos materiais têxteis em comparação aos materiais metálicos.

Apenas para tranqüilizar os usuários, mesmo as padronizações mais modernas como CE não apenas aprovam muitos desses materiais para uso em escalada, como também conferem o certificado PPD (Personal Protective Device - Equipamentos de Proteção Pessoal) para o sistema de controle de qualidade e produção das companhias que trabalham dentro de padrão reconhecidamente confiável.

Portanto, o dimensionamento adequado é um ponto muito importante. Não adianta ter algumas das melhores peças disponíveis no mercado mundial e ‘quebrar galho’ nas outras. O ponto de comprometimento do sistema não estará na média. A falha sempre ocorrerá sobre a peça ou sistema mais fraco.

Pode-se dizer que a segurança de uma escalada depende basicamente de quatro fatores: qualidade dos equipamentos; eficiência do sistema de segurança empregado; eficiência e qualidade das proteções instaladas; e conhecimento técnico do escalador.

Levando-se em conta a importância desses fatores, serão dedicados capítulos exclusivos para esses temas.

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