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Assunto: Escalada em Rocha
Título: Mosquetões
Autor: Luiz Makoto Ishibe

O desenvolvimento do montanhismo nos últimos anos abriu a possibilidade para que alguns fabricantes pudessem investir no desenvolvimento de novos produtos. Com isso o mercado acabou ganhando muitos modelos de materiais, principalmente mosquetões.

A intenção dos fabricantes sempre foi das melhores: oferecer um equipamento adequado para cada tipo de escalador, de escalada e de situações. No entanto, os consumidores, principalmente os menos experiêntes, têm adquirido os equipamentos sem questionar a real necessidade e as exigências das situações de uso.

Tenho visto com certa apreenção o uso indevido desses materiais, mesmo nos ditos cursos de escaladas ministradas pelas empresas (ou clubes) e assistidos pelos guias e instrutores (supostamente credenciados).

Quando se pretende adquirir um material, a pergunta fundamental não deve ser - qual dos modelos é o mais bonitinho para estar no meu gear rack? ou Qual dos modelos ainda não possuo na minha coleção?

Deve sim se questionar - Qual o uso que se pretende fazer com eles e para que cada um dos equipamentos foram projetados?

Até o surgimento do escalada esportiva, a queda de um escalador não era uma coisa tão frequente. Os equipamentos eram projetados para serem possantes (apesar do padrão vigente ser UIAA e os sitemas de controle de qualidade muito menos sofisticados do que os atuais) e utilizados nas montanhas, onde o ambiente é de longe muito mais agressivo do que os daqueles encontrados nos rock gims e paredes modulares preparados para escalada.

Com o surgimento de escalada esportiva, mesmo nos ambientes naturais, os equipamentos passaram a ser submetidos em impactos de repetidas quedas de pequena dimensão. Um mosquetão utilizado por um escalador esportivo de alto nível pode ser solicitado em centenas de quedas antes de ser aposentado.

Também o desenvolvimento de escaladas alpinas fez com que surgissem materiais cada vez mais leves, conceito logo incorporado também pelo resto do mercado.

Mais ou menos na virade de década de 80 para 90 surgiu no mercado uma leva de mosquetões classificados como light weight, de perfil fino e peso inferior a 50g. Esses materiais foram muito questionados devido a sua fragilidade e muitos deles tiveram a produção interrompida.

Hoje não restam muitos deles, mas têm sido utilizados por alguns escaladores de ponta para escaladas alpinas. O fato de serem mais leves contribui para a melhoria do rendimento técnico da escalada.

No entanto, o uso abusivo e/ou indevidos tem provocado rupturas e quebras desses materiais. Pelo menos no Brasil, pelo pequeno número de praticante e o baixo nível técnico e de exigência (comparativamente) desse esporte, ainda não tem ocorrido acidentes que as consequências tenham sido lamentáveis devido a falha do equipamento (talvez melhor dizer falha do usuário).

Um material mais possante que no entanto consegue ser leves o suficientes para serem classificados nessa mesma categoria são os mosquetões com gatilho de arame. Os materiais de projeto bom, pelo menos no sentido longitudinal, conseguem ser até mais fortes do que os modelos convencionais equivalentes. Isso acontece por que esse tipo de projeto conseguiu eliminar ou reforçar alguns pontos de fraqueza como o nariz do mosquetão, além de distribuir a carga de inserção do gatilho em dois furos. Existem modelos que utilizam esse tipo de gtilho no corpo de mosquetão convencional (apenas trocam o gatilho), apenas para reduzir o peso. Obviamente nesses casos os modelos resultantes não possuem nenhuma vantagem estrutural.

Uma coisa muito importante que se deve saber é que não importa o tipo do mosquetão, esses equipamentos foram projetados para sofrerem esforços de tração longitudinal (paralelo ao eixo maior). Nenhum modelo disponível no mercado foi projetado para sofrer tração radial ou transversal. Também deve se tomar cuidado para não submete-los a flexão ou torsão.

Tipos de mosquetões de acordo com o formato:

D SIMÉTRICO E ASSIMÉTRICO: São mosquetões basicamente utilizados para costuras de proteção. Possui baixo momento quando submetido à carga longitudinal, o que os torna ideais para esse uso. Deve-se ter em mente que todos os mosquetões conectados nos grampos em P devem ser virados (Flip). Esse procedimento se estende para todos os mosquetões assimétricos clipados em qualquer tipo de proteção fixa.

GATILHO CURVO (BENT GATE): São basicamente os corpos dos mosquetões em D assimétricos equipados com gatilhos curvos para maior abertura e facilidade de uso. Utilizados única e exclusivamente como mosquetão inferior de quickdraw, servem apenas para passar a corda. Nunca devem ser utilizados diretamente nos pontos de costura. Devem também ser presos na fita de modo que fiquem sempre posicionados com a abertura para baixo. Isso é especialmente importante pois esses mosquetões podem se posicionar atravessados (transversalmente) quando em uso.

OVAL: São os modelos largamente utilizados para Big Walls e também são os ideais para a montagem do Six Carabiners Brake. Isso ocorre devido ao fato destes mosquetões não apresentarem a tendência de deriva e com isso serem ideais para diferentes funções como para carregar equipamentos, montagem de parada complexa, organização de materiais, etc. A grande desvantagem é o peso relativamente elevado (em torno de 60g) e o elevado momento que se causa no eixo principal quando submetidos. Não se aconselha para o uso em costuras de proteção nos locais de potencialidade de quedas grandes e/ou de fator elevado. Podem ser empregados na montagem de parada, desde que se utilize dois deles invertidos.

SEGURANÇA COM TRAVA: São mosquetões desenhados para serem utilizados em locais ou situações vitais para a segurança do escalador ou da cordada. Estes possuem dispositivo que trava o gatilho de abertura na posição fechada para se ter a certeza de que não vão abrir acidentalmente. Existem diferentes tipos de travas, sendo três as grandes categorias: Rosca, Baioneta e automática. Cada uma dessas categorias possuem algumas particularidades:

Rosca: Qualquer escalador que esteja nesse meio por mais de dez anos já deparou com situações em que a rosca travava e o trabalho de desemperramento era verdadeiro pé-no-saco. Acredito que muitos desses escaladores têm reparado que nos modelos novos, pelo menos de alguns fabricantes, isso é muito difícil de ocorrer.

O travamento clássico acontece principalmente por que a rosca (jaqueta) da trava avança por sobre o nariz do mosquetão e fica emperrado. Todos os mosquetões deformam, ainda que seja um pouco, com a carga. É relativamente comum a jaqueta da rosca avançar até encostar no corpo do mosquetão (nariz) quando está carregado e, na hora de solta-lo, numa situação sem carga, a deformação desaparece e a jaqueta fica encavalada sobre o nariz do mosquetão.

Os melhores modelos de hoje possui um anel limitador de rosca tanto na posição superior quanto inferior. Isso faz com que esses modelos sofram menos problemas de emperramento.

Baioneta: Muita gente confunde a trava baioneta com automática. A trava baioneta, ainda que possua um sistema de travamento assistido por uma mola, o acionamento é manual. Isso quer dizer que você possui a opção de mante-lo na posição destravada se isso fizer necessário. Esse tipo de trava ainda não é muito comum. São ideais para auto-fixação, nas operações comerciais e táticos de operações como tirolezas e eventualmente para ministrar segurança com aparelhos como oito e GriGri.

Automática: São as travas que, quando o gatilho fecha, automaticamente ficam travados. Esse tipo de trava já foi a causa de acidentes. Alguns fabricantes produzem mosquetões com trava automática com um segundo estágio de acionamento manual tipo baioneta. Esse segundo tipo é considerado muito seguro e muito empregado nos cursos e instruçãoes. É relativamente comum ver esses materiais sendo empregados como mosquetão para conectar no aparelho de segurança com conexão rígida como oito e GriGri.

Quanto ao formato, os mosquetões de trava podem ser diferenciados em convencionais HMS e D de grande dimensão:

Convencional: São mosquetões em D (simétrico ou não) com trava de segurança. Largamente utilizado como mosquetão do auto-seguro. Podem ser utilizados também nos pontos de costuras vitais em escaladas de grande complexidade (alpina, bigwall, etc) e para costurar os parafusos de gelo (ice screw) e snarg nas escaladas em gelo.

HMS: No Brasil é também conhecido como Mosquetão Pera, devido ao seu formato. Em termos de projeto, não é o melhor modelo estrutural. No entanto o seu formato facilita o manejo quando empregado em certas situações como ponto central de uma parada. Não são mosquetões ideais para ministrar segurança, exceto com equipamentos na forma de tubos ou placas (ATC, Tuber, plaquetas, etc) pois pode-se empregar dois mosquetões para conectar a corda.

D de grande dimensão: Possuem formato assimétrico em D e com maior dimensão do que os convencionais. São fortes no sentido estrutura, o que os torna ideais para conectar a cadeirinha em aparelhos de segurança e rapel.

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