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Executar um rapel seguro não é apenas conectar o equipamento na corda e descer. A coisa começa muito antes com a montagem de parada, auto fixação e instalação de corda.
Montagem de parada: parece uma coisa óbvia, principalmente quando se trata de uma descida de montanha, pois no Brasil normalmente as ancoragens são feitas com os grampos em P, onde devemos instalar a corda e descer.
Mas nas montanhas do mundo afora é bem diferente pois as paradas normalmente são equipadas com chapeletas com correntes ou fitas. As fitas devem ser sempre checadas e, se for o caso, substituídas.
Quando se trata de descidas em locais aonde não existem paradas montadas, diferentes pontos de ancoragens (árvores, fendas, blocos, etc) devem ser buscados e se necessário equalizados. Uma montagem mal feita pode posicionar a corda em um ponto não ideal. A checagem individual dos pontos principalmente no que diz respeito a sua confiabilidade é muito importante.
Quando existe uma rota de descida clássica é muito comum haver a necessidade de executar rapeis ancorados em troncos de árvores ou blocos de pedras. Normalmente as fitas já estão instaladas nesses locais, mas o estado delas devem ser checadas.
Auto fixação: Uma vez montada a parada, a pessoa deve fixar-se nela utilizando um conjunto de fita e mosquetão de trava comumente denominado de auto seguro.
Uma vez feito isso, a pessoa deve checar todos os pontos do sistema, começando pela fivela da cadeirinha e indo até a parada, antes de soltar-se do freio.
Instalação de corda: Antes de tudo passar a corda pelo ponto central da parada (ou olhal do grampo). A segunda coisa é normalizar o comprimento das duas pontas da corda. É aconselhável manter um nó em ambas as pontas da corda, principalmente quando se trata de descidas seqüenciais.
Caso esteja montando o rapel com duas cordas, o nó deve ser rechecado e a ponta de liberação muito bem memorizada.
Montagem do sistema e checagem final: Uma vez tudo pronto, o aparelho deve ser instalado na corda e conectado na cadeirinha. Tudo deve ser checado, principalmente o posicionamento do nó (quando houver) para que ele não enrosque na hora da liberação.
Execução: Uma vez neste ponto é só descer, certo? Erradíssimo. Aliás, aqui está o ponto em que mais erros se comete.
É muito comum depararmos com instrutores e cursos que ensinam os alunos a fazerem rapel segurando a corda ativa (corda que vai para baixo) com a mão de maior habilidade. O argumento é simples: Os destros têm melhor controle com a mão direita e os canhotos com a mão esquerda.
Se o rapel fosse apenas controlar a corda ativa, o argumento teria fundamento. Mas quando se trata de descida de uma parede, é absolutamente fundamental que as pontas da corda estejam na direção da parada seguinte. Assim sendo, se a sua descida tende para a esquerda, a corda deve ser controlada com a mão esquerda. Se a descida tende para a direita, o controle deve também estar na mão direita. Isso facilita muito mais a visualização (você não tem que ficar virando a cabeça), tanto do terreno, da posição da parada, quanto as pontas da corda. Não são tão raros os casos em que o escalador não percebeu o fim da corda e foi embora – obviamente o nó na ponta teria ajudado.
Pois bem, agora que você tem a corda na mão certa, agora é descer aos saltinhos, chutando a parede pra manter o controle, certo? Errado de novo. A descida deve ser feita de forma mais suave possível para que não haja trancos na corda. Isso é principalmente importante com as cordas dinâmicas pois o solavanco pode até causar a ruptura no ponto de atrito com a rocha.
Por fim, para facilitar a liberação, procure não torcer a corda. Mais uma vez os Tubos e as Placas superam de longe os Oitos. Os furos independentes não permitem a corda torcer no decorrer do processo.Para se executar uma sequência de rapel, deve-se tomar o seguinte procedimento:
1:- Montar o ponto de rapel, caso ele não exista ou checar a montagem do ponto pré existente.
1a:- Nunca confie numa parada já montada. Teste insistentemente. Substitua fitas velhas dos grampos ou árvores. Nunca confie nas pontas de pedra, mesmo aquelas que já foram utilizadas.
2:- Fixar-se no ponto de rapel.
3:- Instalar a(s) corda(s) no ponto de rapel.
3a:- Caso esteja utilizando duas cordas atadas verificar o nó e memorizar bem a ponta que deve ser puxada para a liberação.
3b:- Caso esteja utilizando uma corda única, verificar bem o ponto médio da corda e checar se realmente o comprimento útil é suficiente.
3c:- Caso esteja em rapel muito vertical, negativo ou tenha dúvida a respeito da suficiência do comprimento da(s) corda(s) para se chegar na parada seguinte, deixar um nó em cada ponta da(s) corda(s). Muitas pessoas acostumam dar um único nó conjunto nas duas pontas, mas isso pode causar torção muito grande nas pontas que se enrolam, dificultando com isso a descida.
3d:- Atirar as pontas para baixo de forma mais limpa possível para evitar que enrosquem no meio da parede ou formem um emaranhado.
4:- Instalar o aparelho ou montar o sistema de rapel, conecta-se nele e checa-se todo o conjunto (cadeirinha, aparelho, sistema, corda, etc).
5:- Desconecta-se o auto-seguro e prepara-se para a descida.
6:- Inicia-se a descida prestando atenção no próximo ponto de parada.
6a:- Sempre que haja vegetação, platô pedra solta ou qualquer outro tipo de sujeira na via, deve-se prestar atenção para que a movimentação do escalador ou da(s) corda(s) não acabe derrubando alguma coisa.
6b:- Prestar atenção para observar os pontos em que a(s) corda(s) pode(m) enroscar quando estiver(em) sendo removida(s). Caso haja essa potencialidade, procurar encontrar um procedimento que minimize o risco.
6c:- Procurar não causar torção (uma corda sobre a outra), o que pode provocar atrito de arrasto muito grande podendo até inviabilizar a remoção da(s) corda(s).
7:- Retorna para o procedimento 1.
Assim descrevendo, o rapel pode parecer um procedimento corriqueiro e simples. De fato, não existe muita complexidade em rapel em si. No entanto, um rapel é muito diferente de uma sequência de rapéis. Especialmente quando se está numa montanha, o conjunto que consiste na descida toda pode tornar-se extremamente complexa, cansativa e até tecnicamente difícil. Muitos dos acidentes de montanha tem ocorrido em descida.
Nunca deve-se subestimar um procedimento de segurança na montanha. Nunca deve-se pensar que um rapel é igual ao outro. O excesso de confiança é meio passo para erro ou abuso.
Especial cuidado deve ser tomado em condições úmidas. A corda molhada, se associado ao frio, pode facilmente tirar a sensibilidade das mãos que controlam a descida. O acúmulo de sujeira (areia, principalmente) desgasta os equipamentos criando sulcos mesmo em peças de duralumínio maciço como mosquetões e oito. Também estragam as fibras que compõe a corda, interna e externamente. É comum uma corda abrir buracos na capa quando usada em rapel em condições abrasivas.
Mais um fator de cuidado deve ser o vento. Este, quando muito forte, carrega a corda para qualquer direção, até mesmo para cima. Isso aumenta a possibilidade dela se enroscar em algum lugar fora do alcance da linha de descida. Quando isso ocorre nem sempre consegue-se libera-la simplesmente puxando e, por outro lado, não se pode subir através dela, pois não se sabe quão solidamente está presa.
Também pode se tornar impossível a comunicação, exigindo coordenação e feeling dos escaladores. Tudo deve ser combinado antes de iniciar o processo de descida.
Quando o vento está muito forte, muitas vezes é mais seguro picar a descida em seqüências curtas, mesmo que isso signifique a necessidade de instalar pontos intermediários (conseqüentemente abandono de materiais, especialmente fitas).
É também necessário, em certos casos, que o primeiro a descer tenha que levar a corda enrolada, soltando a medida que desce. Obviamente nesse caso, assim que se chegar em baixo, deve manter as pontas seguras para que não saiam voando. O recolhimento deve ser feito nas brechas de vento mais fraco entre as rajadas mais fortes.
Nas descidas com a impossibilidade de comunicação, a regra é de que a corda sem carga é corda livre. Assim, aquele que desce na frente jamais deve aliviar a tensão da corda enquanto não estiver fixo no ponto subseqüente. O escalador que aguarda deve entender que, assim que a corda estiver sem tensão, pode começar a montar o sistema para a descida.
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