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Assunto: Escalada em Gelo
Título: Bota, crampon & cia
Autor: Luiz Makoto Ishibe

Eu, particularmente, prefiro subdividir o grupo das vestimentas devido a sua complexidade e importância. Sempre que penso nele, penso em quatro situações diferentes: caminhada, escalada em gelo, escalada em rocha e uso invernal (ou montanhas altas). Analiso-as independentemente e em conjunto, projeto a real necessidade para cada uma das atividades que quero desenvolver e então escolho os materiais e a forma de compô-los.
Esse grupo é genericamente composto por meias, botas, crampons e cobre-botas (ou polainas).

Meias

“Quanto mais meias, mais quente”, esse é um conceito muito utilizado, porém está errado. A meia nunca deve chegar a apertar os pés. É melhor manter ar ‘morto’ no interior dos calçados do que abarrotar todos os vazios com o tecido da meia. Quanto mais tecido, mais umidade é retida. Quanto mais apertado, pior a circulação sanguínea. Além disso, aumentar o número de meias eleva mais um pouco o peso a carregar.

Eu, particularmente, gosto de ter sempre uns pares como reserva. Nunca durmo com as meias que utilizei durante o dia - não importa o tipo de botas utilizadas, as meias sempre estarão úmidas e esfriarão os pés. Troco-as por um par sequinho e coloco as usadas dentro da roupa para que sequem durante a noite com o calor do corpo.

Importante: nunca utilize meias grossas ásperas diretamente em contato com a pele. É sempre bom ter uma meia fina por baixo. Isso evita bolhas ou esfolamento da pele com a aspereza dos tecidos grossos.

Bota

Individualmente, é um dos equipamentos mais caros na prática do montanhismo. Então, você deve avaliar bem antes de fazer o investimento para não se arrepender.

Analisando as quatro diferentes situações já citadas, procuro nas botas as seguintes características:

Bota plástica.

Caminhada: o solado ligeiramente curvo e uma leve flexibilidade propiciam maior conforto e economia de energia. A maciez e a leveza do casco externo também são importantes além, obviamente, da durabilidade.

Um ponto fundamental que não pode ser esquecido é a articulação do tornozelo. Existem modelos com casco inteiriço que são muito duros e desconfortáveis.

Escalada em Gelo: antes de tudo, a bota tem que se adaptar bem ao crampon e vice-versa. Não importa se é step-in ou strap-on, o conjunto tem que ser firme, sem vibrações ou jogo. Também tem que ser rígido para melhorar a estabilidade.

Uma bota mais justa propicia melhor rendimento técnico. O casco externo macio é mais confortável e melhora a circulação quando a bota é firmemente ajustada.

Para vias longas (Grade V e VI) em locais frios ou afastados, prefiro os modelos quentes apenas como uma forma de garantia caso aconteça algum imprevisto.

Escalada em Rocha: tenho buscado modelos com solado de borracha mais aderente e casco de perfil liso. Os modelos menores e que não rotam em agarrinhas funcionam melhor nos terrenos técnicos. Os solados firmes são mais estáveis, exigindo menos esforço dos pés que os modelos grandes e flexíveis. Cascos com uma banda de borracha envolvente funcionam melhor nas fendas. Essas qualidades são fundamentais nas escaladas mistas e em condições alpinas.

Condições invernais e montanhas altas: acima de tudo, é necessário ter um equipamento quente e prático. Para isso, todos os aspectos da bota devem ser avaliados: Inner boot, midsole, grau de ajuste ao cobre-botas.

Calçados com bucles e velcros são mais práticos e rápidos de fechar do que aqueles com cadarços e evitam que se tenha que tirar as luvas a cada operação.

Os system boots que possuem um sistema integrado de bota e cobre-bota são mais quentes e leves.

Convém lembrar também o sistema de transpiração. Existem basicamente dois processos: o confinamento de vapor e os sistemas transpiráveis.

Confinamento ou VBL: as botas que utilizam esse sistema impedem que o vapor e a umidade da transpiração saiam do inner boot, aproveitando-os para o aquecimento. Os melhores produtos disponíveis atualmente são confeccionados em alveolite com costuras seladas. A única advertência diz respeito ao tempo de uso do produto. Caso deseje adquirir um par de botas de segunda mão em alveolite, preste atenção se o volume do item está bem preservado, pois, do contrário, ele não conseguirá ser eficiente.

O uso desse tipo de botas exige que você troque as meias todas as noites e seque as úmidas em contato com seu corpo durante o sono.

Sistemas transpiráveis: são as botas cujos inner boots foram feitos para transpirar. Obviamente, a umidade não consegue passar pelo casco de plástico – há uma membrana de Gore-Tex para que a umidade depositada entre ela e o casco não retorne ao sistema encharcando-o. Ao descalçar a bota, a água deve ser eliminada.

Mas isso tudo não significa que o seu conjunto não ficará úmido. Apenas evita que fique encharcado, melhorando um pouco o conforto.

Apenas para finalizar, certifique-se de que o tamanho do calçado é mesmo o ideal para você. Se você não pretende fazer escaladas técnicas, ao experimentar as botas com meias esportivas convencionais, é interessante que haja pelo menos dois dedos (uma polegada) de folga. Simule também uma descida em uma rampa - muita gente fica sem a unha do dedão por causa de sua pressão contínua contra o casco duro da bota.

O modelo que eu utilizo é a Scarpa Inverno e Alfa. Considero essa bota imbatível para escalada em gelo e boa em todas as situações. No Alaska, utilizei a bota interna de alveolite e estava bem a 40ºC negativos.

Crampons

Para adquirir um crampon, eu, particularmente, considero as seguintes situações:

Caminhada: prefiro modelos que consigam manter as características da bota. Nesse sentido, gosto daqueles que conseguem ser articulados e, em certos casos, até torcionados.

Podem ser modelos simples e leves, caso não se planeje o uso técnico mais adiante. Mas, obviamente, se você estiver caminhando em direção à base de um bom e velho Colorado classic feito Bridalveil Fall, você deve considerar o aspecto técnico do item. Sistemas antiacúmulo de neve na sola são muito bem-vindos.

Escalada em gelo: para fazer cascatas e rampas de alta inclinação (mais de 80 graus) é bom ter modelos que se fixem muito bem na bota, que sejam rígidos e estáveis.

Para escalar neves compactadas, gosto dos modelos que possuem pontas horizontais, e não verticais. Funcionam melhor em terrenos não consistentes devido a sua superfície maior.

Escalada em rocha: pode até ser novidade para algumas pessoas ouvir falar em escalada em rocha com crampons. Mas, durante enfiadas em terrenos mistos numa escalada alpina, não é costume retirá-los a cada secção de rocha de 10 ou 20 metros. Nesses casos, gosto dos modelos estreitos - mais estreitos que o solado da bota -, pois causam menos alavanca e cansam menos. A rigidez também é importante.

Da mesma forma, gosto mais de modelos com pontas horizontais do que com pontas verticais para pegar os frisos e as fendas finas também horizontais.

Em certos casos os monopoints funcionam muito bem e não torcionam, mesmo nas fendas e frisos inclinados.

Uma dica: quando estiver com crampons sobre a rocha, nunca tente ajeitar os pés, ou provavelmente sairá voando. As cravas de metal devem pousar sobre a rocha e não devem mexer. Refaça a passada se a posição não ficou boa. Qualquer tentativa de ajeitar os pés sem o alívio da carga é meio passo para o escorregão.

Condições invernais e montanhas altas: antes de qualquer coisa, o modelo dos crampons deve ser prático. Ficar passando fitinhas nas fivelinhas com as mãos sem a proteção de luvas não é tarefa útil.

Gosto dos modelos articulados nas situações tecnicamente simples e dos modelos de dentes paralelos para fazer rampas, pois são melhores para a técnica francesa e edging. Caso você utilize botas integrais, você deve testar o ajuste do crampon antes de adquiri-lo. Muitos modelos não fecham bem por cima do overboot.

Crampon clássico com fechamento em fita que permite ser utilizado em calçados leves.

Crampon técnico com fechamento de engate rápido para uso apenas com botas compatíveis (sistema de encaixe).

Sistema de fechamento do crampon com extensor que permite o manuseio mesmo com luvas.

Sistema de ajuste de tamanho que dispensa o uso de ferramentas.

Muita gente cria polêmica sobre a diferença entre crampons rígidos e flexíveis. Eu, particularmente, acho que não existe nenhuma regra que defina essas duas categorias. Muitos dizem que os rígidos são mais técnicos do que os flexíveis, mas eu discordo. O produto tem evoluído muito e os bons projetos conseguem ser eficientes em qualquer terreno. Eu não gosto de nenhum crampon que tenha sideplates horizontais, pois a tendência de acumular neve na sola é muito grande. Isso faz com que eu quase não use modelos rígidos.

Escalei gelo negativo (em solo) na Bolívia com crampons Charlet Moser Super 12 e mandei o Octopussy ‘on sight’ com um protótipo da Sabretooth (BD). Eu nunca senti falta de crampons rígidos na minha vida. Gosto muito dos dois modelos e acho que são bons para tudo.

Também há controvérsia em torno do step-in e do strap-on. Mesmo os step-in têm que ser fechados com uma passada para segurar a alavanca do calcanhar. Muitos fabricantes produzem modelos strap-on que possuem um único fecho exatamente igual ao usado nos modelos step-in. E apenas para reforçar – mesmo sendo strap-on - um bom projeto pode resultar num equipamento simples sem prescindir dos atributos técnicos técnico. O Super 12 que utilizei nos solos da Bolívia era um strap-on.

Cobre-botas

Podemos dividir a categoria em: polainas, supergaiters e cobre-botas:

Polainas: possuem a vantagem do baixo custo e facilidade de uso. Entretanto, quando se caminha afundando os pés em campo de neve macio, os cristais de gelo entram pelo vão que se forma entre a polaina e a bota. E quando esses cristais sobem até o limite do casco e encostam na meia, o calor do corpo os derrete e a água resultante vai encharcando a bota interna. As polainas servem para atividades simples, de preferência que não durem mais que um dia. Uma forma de aumentar a eficiência delas é “silvertapear”, isto é, vedar a abertura com fita adesiva.

Supergaiters: é um produto que possui uma borracha envolvente que se ajusta ao casco da bota deixando apenas o solado aparente.

Gosto muito deles e costumo colá-los nas botas usando cola de sapateiro. Isso faz com que a vedação seja total, além de a borracha envolvente não sair acidentalmente nas progressões em neve fofa ou nas entaladas em fendas.

Polainas (ou gaiters).

Supergaiters.

Outro ponto forte é o fato desse equipamento não alterar nem um pouco o ajuste e a precisão dos crampons. Nada consegue ser melhor em terrenos técnicos. Os modelos para expedição possuem um isolamento extra.

O solado aparente da bota é ótimo para terrenos em rocha. Você não perde a precisão.

Cobre-botas integrais: são os modelos que envolvem completamente as botas. Conseguem ser quentes - principalmente os que possuem a parte inferior confeccionada em neoprene. Deve-se tomar muito cuidado na hora de caminhar sem crampons com estes modelos, pois são muito lisos (não deixam o solado aparente).

É importante também tomar cuidado com o ajuste dos crampons, especialmente com os step-ins.

Al. dos Nhambiquaras, 946 - Moema - São Paulo - Tel.: (11) 5052-8082